MÃE – RACHEL DE QUEIROZ

MÃE – RACHEL DE QUEIROZ

Data: 6 de maio de 2020

MÃE

Rachel de Queiroz

Se um pedaço do meu corpo toma vida e cria olhos e face e membros e coração e entranhas, e até mesmo uma alma imortal, formou-se um ser independente, mas meu corpo ainda é minha carne, meus ossos, meu sangue e a centelha da minha alma. Nisso está o mistério da maternidade, da união impossível de romper. É o meu filho sou eu. Se o ferem dói em mim como nele. Se lhe machucam a alma, dos meus olhos é que correm as lágrimas que o meu filho se envergonha de chorar.
Ele já foi pequenino – lembram-se? Pequenino como uma semente, tão pequeno que ninguém o encontraria dentro do meu corpo – e dentro de mim cresceu, todo ele! Esse riso dele fui eu que lhe dei. Esses olhos, esses cabelos, fui eu que o fiz assim, no lento trabalho do meu sangue, durante quase um ano, a roubar minha substância, fazendo o que era minha vida virar-se em sua vida. E quando a semente palpitante não cabia mais no meu corpo, tive que trazer à luz do dia. Mas era frágil como um botão de rosa, e o meu trabalho de amor continuou, anos e anos. Vivendo do meu peito. Dormindo nos meus braços, andando pela minha mão. Dei-lhe meus dias e noites, meu trabalho, minhas agonias – quantas! – e minhas esperanças.
Hoje está, um homem, pronto para a sua tarefa de homem. tão grande, tão belo, meu filho.
Direis que de jovem que eu era me fiz velha, pelo amor de meu filho. Mas que importa! E aliás não é verdade: olhai, vêde como sou grande, bela, moça, na figura do meu filho!

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